SERVIÇO E VOCAÇÃO

A PERSPECTIVA DE UM PRESBÍTERO

REFLEXÃO

Estava a orientar um retiro e, no final da conferência da manhã, decidi dar um passeio a pé. Saí tranquilamente e sem levar o telemóvel, coisa realmente inovadora e estranha nos tempos que correm. Quando regressei à casa onde estava hospedado, vi que tinha uma mensagem no telemóvel, a pedir-me um artigo sobre a temática condensada no título apresentado acima. A minha primeira reacção foi de alguma estranheza e espanto: como vou escrever algo sobre duas realidades que me parecem tão evidentes e inseparáveis? Mas há alguma vocação que não seja serviço? Para quê separar algo que está tão intimamente unido, a ponto de uma realidade obter o seu sentido mais profundo a partir da outra?

Passada esta resistência inicial, pus-me a considerar a questão de modo mais sereno. Afinal, aquilo que, muitas vezes, está claro ao nível da teologia não se apresenta da mesma forma na cabeça dos cristãos. Além disso, servir é algo que não está de moda e que nos custa, mesmo se Jesus diz que veio para servir e não para ser servido. Quantos de nós, ao fim e ao cabo, não actualizamos e adaptamos esta frase de Jesus para algo bastante mais aceitável e do nosso agrado, como, por exemplo: «eu sirvo, desde que depois também seja servido»?!

Gostaria de deixar claro, desde já, que o serviço não é uma função, mas uma maneira de ser, plasmada a partir da forma de ser e de actuar de Jesus. Por isso, toda e qualquer comunidade cristã é no mundo um organismo de serviço; em concreto, ao serviço do Reino de Deus. Trata-se de uma tarefa comunitária, um trabalho social, realizado por pessoas que vivem as suas diferenças, não como uma ameaça recíproca ou um factor de divisão (escrevo este texto na semana que antecede o referendo na Catalunha), mas como um mútuo enriquecimento e complementaridade.

A palavra ministério designa precisamente a função exercida por diversos membros a favor de todo o corpo. Trata-se de um serviço, uma função, mas também um dom do Espírito, um carisma e uma graça para o bem da comunidade. Com efeito, pode dizer-se que toda a Igreja é ministerial, porque a cada crente corresponde participar nela a partir de um ministério particular; ou, dito de outro modo, todos os cristãos somos agraciados com diferentes dons do Espírito ou carismas.

Infelizmente, o anonimato ou a timidez em que estão muitos cristãos, a passividade ou o comodismo de muitos crentes, a falta de proximidade ou o clericalismo dos ministros ordenados contribui a que, na Igreja, haja pouca densidade ministerial e muito pouca capacidade de serviço. Esquecemo-nos que os ministérios e carismas são dinamismos do Espírito e da Igreja para servir a transformação do mundo em ordem ao Reino de Deus.

O nosso mundo precisa de professores, mas necessita muito mais de bons professores, não só com um boa preparação intelectual e profissional, mas sobretudo com este espírito de serviço e de vocação de quem sabe que está a construir o futuro da humanidade. Temos necessidade de médicos e enfermeiros, mas precisamos muito mais de bons médicos e enfermeiros… Esta lista poderia desenvolver-se de modo infinito, abarcando todas as profissões e demais serviços da nossa sociedade. Mas basta concluir dizendo que todos aqueles dinamismos que constroem a reconciliação entre os homens, que potenciam os valores humanos e culturais, que defendem a justiça e a paz, que promovem a dignidade humana e a criatividade, são dinamismos do Reino de Deus.

Penso que temos todos de olhar com outros olhos para aquelas pessoas que existem nas nossas paróquias, que gastaram toda a sua vida nesta dinâmica de serviço discreto e humilde, que acabaram por assistir à passagem de muita gente e de muitos párocos (também com as suas manias e feitios) e que nunca deixaram de fazer aquilo a que se sentiam chamadas. Sem nunca se sentirem donos e senhores do que quer que seja; sem nunca pensarem que depois deles seria o fim do mundo; sem nunca se apoderarem, em benefício pessoal, daquilo que é de todos. É que, afinal de contas, ninguém se entrega, de alma e coração, a um serviço por 20, 30 ou mais anos, sem um dom do Alto, sem que Deus a isso lhe tenha chamado (é este o sentido da palavra vocação).

Também serão estes a ensinar-nos que, quando não reconhecem ou não valorizam o nosso trabalho, quando falam de nós pelas costas, ou quando põem em causa a validade e a utilidade do nosso contributo, há dois caminhos à nossa frente: desistir e ir-se embora, ou, pelo contrário, continuar a exercer o nosso serviço, conscientes que não o fazemos para obter o reconhecimento dos outros ou agradar-lhes, mas porque foi a isso que Deus nos chamou e é dessa forma que somos cristãos. É por isto que a grande prova de amor de Jesus está na cruz horrenda e repulsiva e não nos aplausos e aclamações da entrada solene em Jerusalém.

Pe. José Domingos Ferreira SCJ

(SCJ - Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus: DEHONIANOS)

SOBRE NÓS

A Paróquia de S. Mamede de Perafita está inserida na Vigararia de Matosinhos, Diocese do Porto. Dela, neste momento, fazem parte 12 organismos e um Centro Social: o Centro Social Paroquial Padre Ângelo Ferreira Pinto.

LOCALIZAÇÃO

PARÓQUIA DE SÃO MAMEDE DE PERAFITA


Praceta Padre Ângelo Ferreira Pinto, nº 25
4455-469 PERAFITA

COMUNICAÇÕES PAROQUIAIS

Para receber a newsletter ANuntio e todas as

comunicações paroquiais, indique:

Copyright © 2017 Todos os direitos reservados Paróquia de S. Mamede de Perafita